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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Identidade (agosto 2012)


Definitivamente, muda.

Silenciada pela rotina.

Esquecida em um canto qualquer

da vida.

 

Rigorosamente, distanciada.

Apartada pelos sonhos.

Dividida em partes tão pequenas

quase invisíveis.

 

Apaixonadamente, irônica.

Extasiada pelo novo.

Entusiasmada com aquilo que está sempre

um passo à frente.

 

Obrigatoriamente, presa.

Desfigurada pelo rosto blasé.

Apagada pelo cinza de um por do sol preso em

alguma lembrança.

 

Desesperadamente, sem identidade.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

(in) adaptar-se (agosto 2012)



Semblantes vorazes perpassam sob meu olhar indiferente. A composição da cena à minha frente esteve em minha memória durante incontáveis momentos. Contudo, algo destoa da minha lembrança imaginada.

Vozes desconhecidas. Rostos já vistos. Risos incontidos. Conversas sem conteúdo. Um acorde com sentido. Um gosto parecido. Tudo compõe a tão perfeita cena. Tudo destoa da tão perfeita cena.

Novamente preferi imaginar. O mundo no qual vivo é tão diferente daquele em que existo! Por um segundo não estive ali. E fui cobrada por isso. Voltei. E tudo continuava como antes. E eu não me adaptei.

Procurei aqueles semblantes vorazes. Eles já não se encontravam mais por aqui. Transformaram-se em incríveis gargalhadas enérgicas. Duas cervejas mudam o contexto.

Não consegui explicar a composição da cena. Fugi por mais de um segundo. E resolvi permanecer por lá. Escutei alguém, ao longe, chamando meu nome. Fingi não ouvir. E dormi, para relembrar a cena por mim imaginada.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Escapa-me (agosto 2012)


Escapa-me o momento exato. Aquele da (in)de(i)scrição. Do arrepio. Do sorriso imediato. Do beijo imaginado.

 

Escapa-me a beleza da simplicidade. Da rosa despedaçada. Da chuva caída. Do suspiro espontâneo.

 

Escapa-me o seu olhar. Velado ao longe. Do abraço forte. Do riso verdadeiro. Da afinidade inexplicável.

 

Escapa-me a  crônica entre os dedos. Da memória inquieta. Dos amigos distantes. Da alegria que não volta.

 

Escapa-me tanta coisa! Escapa-me tudo no momento exato: a hora, o dia, a semana, o mês, o ano.

 

Escapa-me a vida.

sábado, 7 de julho de 2012

37 dias (janeiro 2006)


Hoje acordei com vontade de enlouquecer.

Vi o mundo com olhos de adolescente, com ânsia de descobrir a vida o mais depressa possível.

Fiquei impaciente, tentando encontrar as respostas que tanto procuro. Mas isso só me levou a ficar mais impaciente.

Descobri que um mês é muito mais do que trinta dias quando se trata de saudade.

E que as coisas nunca funcionam quando realmente precisam funcionar.

Sonhei alto... Mas percebi que é muito mais fácil ser criança do que tornar-se adulto.

Senti que preciso de você aqui comigo.

Senti que preciso de um beijo... Não, apenas um abraço seria suficiente.

Quis mudar o calendário, quis fazer o tempo parar.

E o tempo parou.

Parou também a minha vontade de enlouquecer.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Três da tarde (junho 2006)


Para Cleo Rezende 

Três da tarde. Sartre disse que três da tarde é sempre muito cedo ou muito tarde para fazer alguma coisa.

Acabo de chegar da faculdade. Melhor dizendo, da biblioteca da faculdade. Joana veio-me dizer que temos mais uma conta para pagar. Conta... Quem é que liga pra conta quando se mora em república? República. Alguém aí já morou em república? Pessoas que nunca se viram antes dividindo o mesmo teto. Experiência pra vida toda.

Coloco os textos sobre minha cama. Olho o quarto. Clarice foi trabalhar e deixou suas roupas espalhadas por todos os cantos. À noite, quando chegar, vai fazer um bolo e jogar tudo no espaço vazio entre minha cama e a sua. É sempre assim. Já me acostumei, não me importo.

Além de Clarice, Joana e eu, mais duas meninas dividem o espaço comum. Às vezes, as brigas são sérias, inevitáveis. Mas, somos universitárias, sempre encontramos soluções para os problemas.

Sento na cama. Não posso pensar em mais nada, senão no texto que tenho de ler para a primeira aula de amanhã. Não consigo. Preciso dormir. Estou acordada há mais de vinte e quatro horas. Não dormi na noite passada.

Festa... Festa não, uma reunião entre amigos que se estendeu madrugada afora. Pela manhã restavam apenas os casais. Foram todos para suas respectivas aulas: rendimento zero!

Deito na cama. Já não posso lutar contra o sono. Não! Levanto-me. Tenho que estudar. Os projetos finais estão aí e eles são os que mais nos exigem.

Desisto. Não posso ficar acordada. À noite, quando Clarice chegar, estudaremos juntas. Quanta ilusão! Estou cansada de saber que vamos conversar até altas horas e que nem nos lembraremos de estudar. Contudo, também não posso ficar assim, feito um zumbi.

Café. Sim, café. Vou fazer um café bem forte e também comprar chocolate. Não, isso só me fará ficar agitada, inquieta.

Busco um relógio: três e meia. Há meia hora estou lutando contra o sono. De nada adiantou, fui vencida.

Adormeço. Três da tarde é sempre muito tarde para começar a ler um texto para a primeira aula do dia seguinte. Preciso dormir. Talvez também não durma esta noite.